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sexta-feira, junho 29, 2012

ELA

Dentro de um ônibus qualquer, havia uma garota. Não era tão bonita, nem parecia ser tão legal, a julgar pelo seu rosto, parecia mesmo se sentir mal.

Ela olhava pela janela buscando alguma coisa que nem ela mesma sabia dizer, talvez eu esteja errado, talvez eu tenha tido uma impressão estranha, apenas. Tinha cabelos longos, de uma cor não tão escura...Seus olhos sim, esses eram negros feito véu de viúva, profundos, amargos. Por algumas vezes durante a viagem, ela tentou esconder seus olhos, puxando a atenção para um leve sorriso. Ela não me enganou nem por um segundo, talvez eu já esteja experiente demais em reconhecer a dor alheia.

Usava seus fones de ouvido, não sei o que ouvia, mas era algo que mexia muito com ela. Vi lágrimas que brotavam no canto de seus olhos, ela lutou demais pra não deixá-las cair, mas assim como eu, ela não conseguia fingir. Estava frio, todos no ônibus com os seus casacos e aliás, quase todos dormiam, menos eu, e ela, que olhava perenemente pela janela.

O mais engraçado de tudo é que parecia haver mais frio dentro dela do que em todo o ambiente que nos cercava.

Ela é um ser estranho, acabei de chegar à essa conclusão, estou a observando por mais de duas horas e não consigo ver nada além de sua frieza, ela infelizmente está mergulhada na sua solidão. Ela não se importou nem um pouco em conversar com ninguém, não disse uma palavra se quer.

É como se eu pudesse ler sua mente. Ela queria que todos sumissem, na verdade não, ela queria mesmo que todos morressem. Nunca fez muita questão dos seres humanos, pessoas só se afogam nas suas próprias discórdias...Mas afinal, ela também era assim, ela também era humana (eu acho), e não sabia se odiava mais as outras pessoas ou à si mesma.

Os olhos dela me lembravam a morte, mas eu já falei dos olhos dela.

Com certeza, foi uma das pessoas que mais me impressionou em toda a minha vida, apesar de não ter a ouvido dizer uma palavra. Seu rosto era sereno, como de alguém que espera seu próprio fim, sem questionar, sem duvidar.

Quase ao fim da viagem, uma lágrima finalmente caiu de seus olhos, enxugou-a prontamente e olhou ao redor, pra se certificar de que ninguém havia visto tal ato de fraqueza, foi quando ela me viu e percebeu que escrevia em meu caderno sobre ela. Não disse uma palavra, não esboçou nenhuma reação, apenas olhou-me como quem diz:

-Não conte isso pra ninguém.

(Tamires Alci)

•Ouvindo Agora: La Solitudine - Renato Russo

2 comentários:

Marcos "Tinguah" Vinícius disse...

Texto realmente bom! Incrivelmente bom aliás!
Bem escrito, e de facil compreensão... A leitura fluiu de tal forma que é impossivel não gostar. Parabéns e continue assim!
Beijos!
E mais uma vez, parabens ^^

Beatriz Karen Lopes disse...

Achei sensacional esse conto! O final foi tão surpreendente que o imaginei como enredo de um clipe, ou um curta... Imaginei até a música que estaria no fundo da cena! Beijos, bom fim de semana!

http://alacazaam.blogspot.com.br/

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