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sexta-feira, agosto 17, 2012

CONTOS METÁLICOS - DANILO PT. 1 DE 2

Pra começar, estávamos os três ali, naquela praia, fim de tarde...Eu e mais dois caras que haviam ganhado a minha confiança com o passar do tempo. Não, eles não estavam ali desde que eu tinha 3 anos de idade. Um deles até, tem pouco mais de 2 anos que conheço, mas algo no jeito de falar ou na convicção que ele sempre tem, merece o meu respeito.

Okay, mas não estamos aqui para discutir a relação tempo-amizade-confiança que tínhamos. 

Fazia algum tempo que não os via, aliás, deixa eu me corrigir: "Fazia algum tempo que ninguém me via." Não. Eu não sou invisível, okay? Eu tô apenas falando das pessoas que normalmente costumavam me ver...Leia-se "ver" como "olhares tortos". Pra dizer uma grande verdade, eu nunca fui um cara normal. Até meus 15 anos morei numa 'cidade grande', estava acostumado com o barulho dos carros, pessoas falando alto, tiros (às vezes) e até me familiarizei com o barulho da estação de trem. Eu gostava daquilo, eu era viciado em todos aqueles tipos de barulhos, sem contar a jukebox do barzinho, embaixo do prédio.

Eis aí o momento em que as coisas começaram a degringolar: Minha mãe perdeu o emprego que nos mantinha e a companheira dela (sim, minha mãe era lésbica...Nunca vi problema algum nisso. Via problemas na PESSOA que ela tinha escolhido pra estar ao lado dela...ou melhor: DEPENDENDO DELA). A filha da puta era uma folgada de nível superior. Não fazia nada. Era como um homem: Usava roupas de homem, falava como um homem e coçava as virilhas como um homem...O problema todo é que ela não trabalhava como um homem...E muito menos fazia as coisas de casa, afinal, da perspectiva dela, isso era coisa pra mulher. E na sua visão machistamente escrota, era mais do que normal a minha mãe chegar do trabalho cansada e ainda fazer comida, arrumar a casa, lavar banheiros e todos esses inúmeros afazeres domésticos. Eu até ajudava em algumas coisas. Deixava a casa arrumada ao meu jeito, claramente. O que, infelizmente, não agradava muito a minha mãe. Afinal, eu não tinha esses 'dons' que as mulheres tem, de deixar tudo arrumadinho e bonitinho. Eu fazia o que podia. Eu fiz o que pude por um certo tempo...Tentei agradar, tentei ajudar, mas não deu certo. E como não deu certo, comecei a tocar o foda-se.

Como disse antes, minha mãe perdeu o emprego. Pegou até algumas parcelas de seguro e tal, mas não ajudou muito. Tive que sair do colégio em que estudava, era particular. Fui para um público, não me adaptei muito bem, como vocês já devem imaginar. As outras pessoas me ridicularizavam pelo fato da minha mãe ter uma opção sexual diferente das mães 'normais'. Aquilo tudo me deixava puto, mas eu tentava me concentrar nos estudos. Nunca dependi da opinião de ninguém pra sobreviver. Dependia da minha mãe e do dinheiro que ela ganhava, aliás...Do dinheiro que ela não ganhava mais. A gente tava na merda e isso fazia a tal folgada master se emputecer à níveis catastróficos, o que sempre gerava brigas e eu sempre terminava no boteco, aquele, embaixo do prédio. Muitas vezes eu ia de lá direto pra escola. Tava pouco me fudendo pra elas duas.

A gente foi despejado por não pagar o aluguel...Até ai tá tudo péssimo, mas uma coisa salvou essa parte da história: Numa das brigas frequentes entre a 'macho dominante' e a minha mãe, ela foi embora. Disse que não ia morar debaixo de uma marquise com uma mulher 'ruim de cama' e com um garoto escroto que só sabe reclamar da vida. E lá foi-se ela. 

Bom, minha mãe ficou um pouco chateada, mas isso passou. A gente foi morar de favor na casa de uma tia distante. O problema é que a tia distante, morava no meio do mato...LITERALMENTE. Não tinha nada naquele lugar, nem boteco, nem barulho e pasmem: Nem estação de trem. 

Os primeiros dias foram tranquilos. Tudo estava se acertando: Minha mãe havia arrumado um emprego, as pessoas na escola não implicavam comigo e não tinha mais ninguém com comportamentos masculinos a não ser eu e meu tio.

Eu comecei a ficar inquieto, lugares calmos demais nunca foram a minha 'praia', se é que me entendem. Eu não tinha nada pra fazer, não tinha com quem conversar, não via aquele 'trânsito de pessoas'. Eu era uma barata da cidade. E adorava tudo que a cidade tinha: dos esgotos aos shoppings. E agora, eu tinha de caminhar 20 minutos pra chegar em uma padaria...Até eu comprar meu pão, já tinha perdido a fome. 

Odiava essas viadagens todas de natureza: Ar puro, árvores, trilhas...Se eu quisesse natureza, ia acampar. Mas eu não tinha APENAS ido acampar. Eu estava morando lá. E por mais que isso não pareça tão ruim assim aos olhos de outros, aos meus era um pesadelo. 

Passaram-se 3 anos desde então. Eu e minha mãe nos mudamos pra uma casa na mesma rua da minha tia. É, por algum motivo que minha inteligência desconhece, minha mãe adorava aquele lugar. E quanto mais eu me esforçava em odiar e criticar, mais ela gostava e isso não ia mudar.

O lugar era esquisito, parado...Me lembrava a Centralia, uma cidade abandonada na Pensilvânia depois de um desastre natural envolvendo gases no subsolo e rachaduras no chão. É, eu vi muita televisão por um tempo. E, por algum outro motivo que desconheço, eu adorava esses tipos de documentário.

Eu cresci, já tinha meus 18 anos...Tá, não é grande coisa. Porém, eu já podia entrar em alguns lugares bem legais. Não era o caso.

A real situação é que a essa altura do campeonato, minha mãe resolveu se envolver com uma outra mulher. Eu fiquei puto. Tava traumatizado. Traumatizado mesmo. 

Continua...

(Tamires Alci)

 •Ouvindo Agora:Black nº1 - Type O Negative


6 comentários:

Marcos "Tinguah" Vinícius disse...

Meu Deus. O que foi isso?
Muito bem escrito! Bem descritivo e bem rico em detalhes tambem. Esse tipo de texto puxa o leitor pra dentro da narrativa.

Excelente texto amor,
Parabéns! E continue. Definitivamente "Danilo" pede uma continuação.

Beijos,
Te Amo.

Arash Gitzcam disse...

Tb curti! Esse tipo de literatura nos acrescenta algo mesmo q involuntariamnete, em um detalhe ou outro... Espero a continuação, e que tudo dê certo para eles...

Ariana disse...

Uau que conto perfeito, desses que prendem a gente.
Aguardo a continuação, Danilo deve enfrentar uma barra ainda né.

Beijos

Francorebel disse...

Um homem pra chamar de seu.... mesmo que seja eu....

Muito bem escrito, vibrante, lindo.

Léo disse...

Mt bacana, agora quero ver como o guri vai reagir a nova namorada da mãe. Ansioso pelas próximas partes.
Abç

Pergunte a uma mulher disse...

Super legal!! isso dela sair com uma mulher me lembrou uma menina que apareceu no blog e que disse que Deus não gostava dos gays, fiquei tão triste e surpresa dela pensar assim, e aí resolvi fazer uma entrevista com um casal de meninas homo que será postada em breve.

Você escreve muito bem! parabéns! adorei!

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