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sábado, agosto 18, 2012

CONTOS METÁLICOS - DANILO PT. 2 DE 2


Minha mãe disse que ia levá-la pra eu conhecer, ia fazer um jantar e essas sacanagens todas que a gente bem conhece. Okay. Ela saiu pra buscar a dita cuja. Eu dei um tempo em casa, coisa de uns 20 minutos, até que tive um momento de 'iluminação'. Peguei algumas roupas, coloquei-as dentro da mochila jeans (que à esse momento, era uma das coisas que eu tinha mais afeto), roubei algum dinheiro da minha mãe e fugi. Simples assim: Fugi.

Peguei um ônibus e depois mais dois. Já tava bem distante. À princípio eu não soube bem o que fazer, mas depois de uma ou duas semanas você vai aprendendo umas malandragens. Em 2 meses eu já havia feito toda a sorte de merdas possíveis. Roubei, matei, cheirei...Matei pra roubar, consequentemente para cheirar. Eu fiquei viciado. Viciado em fazer merda, em me afundar, em ir contra todo mundo. Eu sentia um apelo enorme de gritar na cara da sociedade e às vezes, de lhe dar um belo tapa na cara. E era o que eu fazia.

Na maior parte do tempo, eu me atinha à pichar muros de igrejas com crucifixos de cabeça-pra-baixo, pichar entradas de museus, tentar quebrar estátuas ou qualquer outro tipo de monumento. Qualquer coisa que tivesse valor pra alguém. Qualquer coisa que fosse deixar alguém puto.

Me pegaram algumas vezes. Eu até fui internado num tipo de clínica(?), me diagnosticaram como 'Delinquente social', que porra de nome escroto arrumaram para o meu pequeno transtorno. Eu não era um monstro, era apenas uma pessoa mal compreendida. É só isso. Eu fugi, como o imaginado.

Nesse meio tempo conheci um mundo que eu não conhecia antes, um mundo que eu sequer imaginaria que existe se eu não tivesse me jogado nele. Um mundo em que você tem que dormir com os dois olhos abertos e algum tipo de arma na mão, só pra evitar a fadiga.

Conheci pessoas e mais pessoas. Boas, ruins, péssimas...Algumas eu diria até que são reencarnações do próprio diabo, que se disfarça e vem à terra pra ver como andam seus discípulos.

Foi num dia de inverno que me apaixonei. Não vou prolongar muito essa parte da história: Ela era puta, era bonita e fazia bem o seu trabalho. Visitei com frequência por algumas semanas, logo depois, me desencantei. É, me desencantei. Ela era puta e você não pode se apaixonar por uma puta, a menos que seja rico. E esse não era o meu caso. Aliás, passava bem longe de ser.

Eu morava na rua, debaixo de marquises, nas calçadas, em qualquer lugar. Depois de ter adormecido, numa noite de inverno, eu não me lembro como fui parar na emergência de um hospital. Tinha uma faca cravada no meu braço direito e pode ter certeza, esse era o menor dos meus problemas. Aquela porra de sala parecia um campo de batalha...Não, não, parecia um campo de extermínio. Afinal, as pessoas eram deixadas ali pra morrer e eu, consequentemente, não tinha a mínima chance de continuar vivo se permanecesse ali.

Liguei pro Samuel, um dos amigos que citei no começo do texto. Ele era da vida, feito eu. Mas havia se casado, arrumou uma casa e foi se 'endireitando'. Ele se prontificou em me ajudar. Me levou pra um outro hospital e lá trataram bem de mim. Depois que tive alta, fiquei em sua casa por uns tempos. Ele teve muitas conversas comigo. Conversas de 'pai e filho', conversas que eu nunca havia tido. Me incentivou à andar na linha e tenho de confessar, que naquele momento da minha vida, fez todo sentido. 

Eu passei a me cuidar, arrumei um emprego e depois de muito pensar, resolvi procurar a minha mãe. Ela me acolheu, mesmo depois de saber cada mínimo detalhe do meu tempo fora de casa. Ela foi a mãe que nunca se mostrara antes pra mim. Eu abracei, chorei...Ela apenas me olhou nos olhos e disse:

"Danilo, por pior que sejam as coisas, não há lugar no mundo melhor que a nossa casa."

(Tamires Alci)


2 comentários:

Arash Gitzcam disse...

Tocante. Que ele tenha sido feliz. Os personagens são tocantes, reais... Nos fazem torcer por eles...

Beatriz Karen Lopes disse...

Este seu conto me lembrou muito Christiane F. Uma versão masculina, claro. Esse filme, por mais clichê que seja, meche muito comigo e o seu texto conseguiu me tocar da mesma forma. Pelo menos o Danilo foi feliz, o que pode não acontecer com muita gente que se joga na 'vida'.

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