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segunda-feira, agosto 06, 2012

CONTOS URBANOS - AMÉLIA

Eis que estava ali, parada, quase inerte, esperando o ônibus. 

Era quase imponente, usava um vestido rosa. Rosa rodado, rosa goiaba, que fielmente combinava com suas sandálias. A bolsa era branca, um fecho dourado de latão. Brincos de argola que havia comprado na feira há mais ou menos uma semana atrás.

Não era feia, mas também não era tão bonita assim. Era normal. Se chamava Amélia. Não gostava de seu nome, preferia que fosse Mariana, Suzana ou Alana....E que fosse parecida com tantas outras Ana's.

Tinha olhos claros, olhos cor de mel, que se perdiam no horizonte à espera do 551-Penha. Olhos quase niilistas. 

Sua face, no geral, era suave...Traços delicados, parecia ter sido pintada com pincéis de cabelos de anjo. Boca fina, batom cor de pele. Um blush rosado. Nos olhos, só o lápis e o rímel. Mudo minha opinião à essa altura. Ela era bonita sim.

Ela tossia forte...Tinha sérios problemas.

Um rapaz se aproximou, perguntou se estava tudo bem...e um pequeno diálogo foi se fazendo.

-Ei, você está bem?
-Estou sim, obrigada
-Quer uma água ou um refrigerante?
-Não, não, obrigada.
-Qual seu nome?
-Amélia...E o seu?
-Vitor
-Prazer.
-Igualmente.

Okay, não foi um grande diálogo. Mas foi um. Ela ficou ali por mais uns cinco minutos, começou a contar sua história, que não era lá grande coisa, olhando do alto do seu salto e dos seus 27 anos. Tinha uma filha, não era casada, morava de aluguel, fumava, bebia e tinha problemas com a família e com o pai de sua filha. 

Despejou tudo isso em cerca de 3 minutos, em cima daquele sujeito de quem ela só sabia o nome. Era como se realmente precisasse contar isso pra alguém e esse alguém, era ele. Que se ofereceu tão prontamente para ajudar.

O rapaz, que aparentava ter uns 23 anos, não disse muita coisa. Aliás, não disse quase nada mesmo. Naqueles 3 minutos ele praticamente só concordou e acenou com a cabeça. Sinais de aprovação e reprovação.

Amélia, mesmo um pouco distraída, percebeu que seu ônibus havia chegado. Se despediu, agradeceu, subiu no ônibus, passou na roleta, sentou-se. De dentro da pequena bolsa branca tirou uma bombinha pra asma, levou à boca, acalmou-se, olhou pela janela e viu o céu cinza, começava à chover, suspirou levemente e continuou sua vida.

(Tamires Alci)

•Ouvindo Agora: Nem Mais Um Dia - Djavan

2 comentários:

Arnoldo Pimentel disse...

Gosto muito de contos assim, que fala de pessoas. Muito bom mesmo, amei o conto.Parabéns.

Beatriz Karen Lopes disse...

Eu queria ter este seu dom, de narrar situações tão sutis de uma forma tão elaborada a ponto de me segurar até o fim do texto. Acredito que grandes escritores são feitos destas coisas...Adoraria ler mais alguns de seus "Contos Urbanos". Beijos ;*

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