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quarta-feira, agosto 22, 2012

CONTOS URBANOS - ANA LÚCIA

Abriu os olhos. Recusou-se a levantar por algum tempo. Ficou ali, estatelada, olhando pro teto, como se nele pudesse haver algum tipo de resposta relevante pras suas tolas questões. Vagarosamente foi tomando coragem para "acordar", vagarosamente mesmo, como quem toma um copo de whisky. Espreguiçou-se. Estava nua, completamente nua. Era assim que gostava de dormir. Pôs-se sentada à beira da cama. Parou por alguns instantes, observou tudo. Estranho, já morava ali, faziam 5 anos e só agora tinha reparado a disposição da mobília no ambiente. O tapete felpudo no chão, a escrivaninha, o armário, o rádio...E por falar em rádio, finalmente levantou-se, para ligá-lo. 

Ia pôr um cd qualquer, mas sua preguiça estava forte demais, então apenas encontrou uma estação e deixou correrem as notícias da manhã. Nada extremamente novo. Tudo na mesma, pra falar a verdade: O trânsito um caos. Um pai que estuprou a filha. Uma igreja que foi saqueada. Nada que pudesse abalar o mundo. 

Dirigiu-se a janela. Abriu-a. Tomou um choque com o vento frio que adentrara o ambiente. Cruzou os braços afim de se aquecer. O dia tava chuvoso, uma leve neblina cobria o gramado no quintal e a piscina. O céu estava escuro, pelo que aparentava, choveria pela eternidade. O quarto era iluminado por um abajur de lâmpada verde. Deixava-se mostrar a tatuagem nas costas, enquanto o cabelo, longo, fazia um pequeno esforço para cobrí-la. Ficou ali, imersa no seu silêncio. Imersa no silêncio total. Apenas uma voz separava o mundo dela do mundo real, era a voz do radialista:

"Previsão do tempo, para hoje 27/08/1999: Céu completamente encoberto, chuvas fortes por toda a região sul devido à frente fria originária da Argentina. É gente, preparem os guarda-chuvas e edredons"

Pensou por um instante: "nada acontece na minha vida, nem um ataque terrorista."

Deixou-se levar pela melancolia por mais alguns minutos. 

Fechou a janela, separou uma roupa e foi se arrumar para o trabalho.

(Tamires Alci)



5 comentários:

Arash Gitzcam disse...

Que interessante, acordar e ter um tempo de vida por pequeno que seja antes de ir pro trabalho...

B. disse...

O desfecho me deixou com um gostinho de quero mais, rs. Gostei da relação do tempo com a vida da garota. Adorei o detalhismo, sou fascinada. Digo que me sinto como a personagem, é rotina, só rotina e mais nada. Quem sabe, uma hora as coisas mudam. Como sempre, ótimo conto!

Léo disse...

Pego em um momento de melancolia todos achamos nossas vidas rotineiras, mas em cada minuto nós podemos mudar nossa rotina com uma simples xícara de café adoçado com boas risadas, se aceitarmos a rotina ela nunca mudará. Belo texto.
Abç

Francorebel disse...

É caso de se arrumar um quintar pra carpiná?

Ou uma causa em comum pra lutá?

D. Mama disse...

Rotina e solidão, acompanhado de um chá.

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