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quarta-feira, agosto 08, 2012

CONTOS URBANOS - ARIANNE

Arianne, sim...Esse era o seu nome de 'guerra'.

Tinha 23 anos, corpo esguio, seios fartos, bunda grande, coxas grossas, como toda morena que se preze. Na verdade, como toda boa puta deve ser.

É uma palavra forte sim. Puta. Mas infelizmente é o que a define, aliás, é como os outros a definem. Morava num barraco, perto de Santa Tereza. Morava sozinha, não gosta de dividir o dinheiro que ganha com 'tanto esforço' com alguma piranha mais velha que só sabe mandar nas outras, como se fossem bonecas. Já havia passado por isso há um tempo atrás, mas agora, o dinheiro era só dela.

Engraçado como pensam que puta só é puta porque quer. Não é bem assim não. Vida de puta não é vida fácil, como todos dizem. Você pode transar com um lindo loiro de olhos azuis e em seguida um velho gordo à lá Sr. Barriga. Puta não pode escolher. Aliás puta só escolhe, se por acaso ela for uma 'bonequinha de luxo', ai ela escolhe sim...Escolhe se vai receber em dólar, libra, euro...

Voltando...

Arianne fazia seus trabalhos num barraquinho ao lado do barraco que morava, aquela porra parecia mais um chiqueiro, pra falar a verdade. E com tantos 'porcos' que entravam lá, só tornava ainda mais real o meu cenário.

Não vou mentir pra vocês, Arianne fazia todo tipo de coisa que a mandavam, por dinheiro. Anal, oral e toda a sorte de bizarrices que quase denunciavam doenças psicológicas.

Era usuária de drogas, precisava pagar seus produtos e suas contas. Afinal, pode parecer contraditório, mas Arianne, apesar de tudo, era honesta.

Satisfazia seus clientes e recebia seu dinheiro de uma forma que, para ela, era honesta. Não tava roubando e nem matando ninguém. Usava o seu corpo e de mais ninguém. Então, seu dinheiro era limpo. Pelo menos na visão dela.

Às vezes se pegava chorando, às 3:40 da madrugada de uma quarta-feira. Aliás, se pegava chorando quase sempre, tinha seus conflitos internos, coisas que só ela sabia entender e, infelizmente, não tinha ninguém para compartilhar...Nem um amigo traveco. Por conta disso, se afundava nas drogas. Trabalhava para se drogar e se drogava para 'trabalhar'. Como uma máquina, uma medonha máquina que, pouco a pouco, começava à enferrujar.

Do alto de seus 23 anos, Arianne era aidética e a coca só piorava sua situação. Estava ficando cada vez mais magra devido à falta de apetite que a droga causava. Na geladeira, quase sempre não tinha nada, então era como unir o 'útil ao desagradável'.

Passado alguns, poucos, meses, começou a perder seus clientes por causa do declínio de seu corpo. Agora com o rosto magro, bochechas 'chupadas',  coxas e bunda flácidas. Arianne estava perto de seu fim. Ela sabia disso. Já não tinha mais dinheiro pra sustentar seu vício, não tinha dinheiro pra pagar as contas. Foi despejada. Passou uma semana na rua, embaixo de alguma marquise. 

Teve uma parada cardíaca. Alguma boa alma, levou-a para um hospital. Público, obviamente. Foi largada em uma maca. Ainda conseguia pensar em alguma coisa. E eis um dos seus 'talvez' últimos pensamentos.

"E tudo o que fiz, de nada valeu."

Já teve amores, já havia sonhado em ter uma casa, filhos e um cachorro correndo pelo quintal. Mas a vida, nem sempre é justa para todos ou todas. Seus sonhos foram desfeitos diante de seus olhos umas 3 vezes, mas a última foi a que realmente mudou sua vida, para pior...Jonas, ele havia ido embora. Foi morto com três tiros em sua frente e ela simplesmente não pôde fazer nada além de correr. Tinha apenas 16 anos e decidiu não voltar pra casa, não mais...Nunca Mais.

Era uma mulher, como todas nós. Tinha sentimentos e conflitos internos. Se preocupava com estrias, celulites e cabelo...Arianne, na verdade era Ana Paula. E a Ana Paula, essa sim, nunca morreu.

(Tamires Alci)

•Ouvindo Agora: Natasha - Capital Inicial

7 comentários:

Marcos "Tinguah" Vinícius disse...

"Satisfazia seus clientes e recebia seu dinheiro de uma forma que, para ela, era honesta. Não tava roubando e nem matando ninguém. Usava o seu corpo e de mais ninguém. Então, seu dinheiro era limpo. Pelo menos na visão dela."

- Dinheiro sujo é dinheiro de roubo ou morte. E nessa vida cada um se vira como pode...
E fico feliz que, muito embora ela tivesse feito tudo que fez, a sua 'alma' -ou Ana Paula- nunca morreu. Essa sim é a pior morte de todas.

Otimo conto, muito bom mesmo amor. Tá de parabéns ^^

Arianne Barromeu disse...

Ei, seu conto me bateu aquela realidade na cara, hien. Primeiro, a protagonista tem o meu nome. O por incrível que pareça, você colocou 2 enes... Exatamente igual. haha Muitos erram. E ao decorrer do conto, tudo me surpreendeu, simplesmente o final. Muito bom!

Beijos,
http://eppifania.blogspot.com

Arnoldo Pimentel disse...

Seus contos urbanos, são urbanos e muito bons, realistas. Parabéns.

Figueiredo Vagner disse...

Show!

Morini disse...

Gostei do seu blog, você escreve bem, parabéns.
Seguindo!



http://umlivroqualquer.blogspot.com.br/

Fabinha disse...

Muito forte... Muito real.

Adorei! :)
-
http://quandotahescuro.blogspot.com.br/

Beijo

B. disse...

Apesar da linguagem 'vulgar' (com todo o respeito), eu acho que ela foi bem utilizada, pois retratou uma história real. É isso o que acontece, com essas garotas. E não cabe a nós julgar. A sociedade é preconceituosa a ponto de não considerar o caminho que essas meninas percorreram para estar aonde estão: vendendo seu corpo, a fim de ganhar o seu sustento. É claro, que não concordo com tal fato, MAS, se o mundo não oferece alternativas melhores, cabe a elas escolherem se querem viver de uma forma não digna, ou ser jogada a própria sorte e na maioria das vezes, vir a óbito. Elas sofrem o tempo inteiro, passam por situações de calamidade e ainda precisam obedecer às ordens de homens machistas e/ou violentos. Infelizmente, é o que acontece. E o governo não faz nada pra mudar isso, pelo contrário, o número de prostitutas aumenta, assim como a falta de oportunidades. A escolha do seu tema foi super interessante e a maneira como o retratou também.

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