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sábado, agosto 25, 2012

CONTOS URBANOS: O BILHETE DE UM PSEUDO-CANALHA

Sentou-se num canto qualquer do café. Não, mentira. Escolheu minuciosamente uma mesa perto da janela. A janela era grande, tipo vitrine, daquelas que se observa tudo lá fora. O vidro tava meio embaçado, meio sujo...Sei lá.

Acomodou-se. Pôs a bolsa ao seu lado, de dentro dela tirou um caderno velho, com orelhas, meio amassado e uma caneta. Folheou até achar alguma folha em branco. Encontrou. Dobrou o caderno. Colocou a caneta atrás da orelha direita, ajeitou os óculos e olhou ao redor. Fez sinal e chamou a pequena garçonete:

-Boa noite
-Boa noite, o que a senhora deseja?
-Senhora? Eu tenho 22 anos...Seja um pouco mais gentil, ok?
-Okay, desculpa senhora
-Ahhh, vamos tentar de novo

(A garçonete sorriu, um sorriso sem graça...Mas sorriu)

-Boa noite
-Boa noite, posso ajudar?
-Tá vendo, ficou bem mais bonito agora...Pode sim. Eu gostaria de um copo de whisky com duas pedras de gelo e depois um fondue...Pequeno, por favor.
-Deseja mais alguma coisa?
-Não, creio que não...Por enquanto, é só.

Ficou ali parada por uns cinco minutos, observando atentamente a vida lá fora. Como quem observa um aquário. A garçonete voltou, trazendo o pedido da jovem moça. E eu fiquei observando as pernas da garçonete gostosa. Sei lá, ela era gostosa sim, mas alguma coisa nela, me broxava...Acho que era aquela porra de vestido xadrez.

Voltando...

A garçonete trouxe o pedido, ela pôs o copo no canto esquerdo-central da mesa e só agora havia reparado que ali havia um cinzeiro. Estava sujo. Incomodou-se um pouco com a situação, mas não disse nada, apenas afastou-o com uma das mãos (parecia estar com um pouco de nojo). Tirou a caneta de trás da orelha e pôs-se a escrever. Bebia e escrevia. Escrevia e bebia. Bebia para escrever e escrevia pra tentar esquecer. Esquecer o quê ou quem....Eu não sei. Sei apenas que ela tentava esquecer algo, estava explícito em seus grandes olhos castanhos. Por algumas vezes, quase chorou. Conteve-se e bebeu mais um gole. Acabou por pedir uma outra dose. E debulhava-se em palavras...Pobre da caneta. 

Parou por alguns instantes, ajeitou os cabelos longos, prendeu-os num tipo de coque. Ficou meio bagunçado, devo admitir. Mas aquele batom rubro em sua boca, jamais a deixaria sequer, chegar perto de ser feia.

Voltou a escrever. Confesso que estava interessado nela, mas confesso que interessou-me ainda mais o que escrevia com tanto afinco. Mandei um bilhete, junto com outra dose de whisky. Estava escrito:

"Posso saber o que tanto escreves?"

Ela tomou a outra dose, agora um pouco mais rápido. Fechou o caderno. Guardou-o dentro da bolsa. Soltou os cabelos e pôs-se a responder meu bilhete, eis o que continha nele:

-Caso seja um psicólogo não. Não pode saber sobre o que escrevo ou me acharás complexada, como todos os outros profissionais que conheci. Caso não seja, me ligue e talvez você possa virar uma das páginas do meu caderno. Alice (2785-6484). Um beijo.

Saiu do café, pegou um táxi e se foi.

E eu? Eu fiquei ali, parado, com um sorriso sacana no rosto, apenas me decidindo se ligaria ou não.

(Tamires Alci)

•Ouvindo Agora: Hurt - Johnny Cash

8 comentários:

Arash Gitzcam disse...

Nossa, ganhou um contato com uma só atitude, irado.

Aline disse...

Criativo demais o conto... E bem escrito!

Francorebel disse...

O que deseja a senhora?....

mariana prudêncio andreto disse...

Adorei seu modo de escrever muito bom *-*

Pergunte a uma mulher disse...

Genial moça, parabéns!!

Léo disse...

Algumas pessoas tem essa, digamos, aura instigante que desafia quem as observa a desvenda-la. Um dia ainda quero perguntar a um louco como ele enxerga as pessoas que estão na sociedade.
Abç

Marcos "Tinguah" Vinícius disse...

Muito bem escrito... Me senti um voyeur da situação, como se eu tivesse sentado na mesa ao lado deles.

Muito genial, meus parabéns meu amor!
- Continue assim ok?

Beatriz Karen Lopes disse...

Adorei o conto, muito bom mesmo! Adoro essas situações em que uma ação inusitada para certo lugar (como escrever em um bar com tanta intensidade) pode ser o estopim para um vínculo, mesmo que efêmero, entre duas pessoas.

Beijos, boa semana!

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