Subscribe:

sexta-feira, outubro 26, 2012

CONTOS URBANOS - CHUVA

-Vamos lá, é só uma chuvinha à toa
-Ahhh não
-Vamos, heinnn?
-Não, eu escovei o meu cabelo hoje
-Você escova de novo depois, ué.
-Ahhh, dá muito trabalho...

Vendo que não tinha jeito, ele parou de insistir. Ficou ali, ao lado dela observando as gotas que ficavam batendo na janela. Estava chovendo, mas estava abafado.

Aline?
Estava parada olhando pra fora, imersa em uma aura de solidão, de nostalgia, quase tristeza. Não falou nada durante uns cinco minutos. Levantou uma das sobrancelhas, fez bico, estreitou os olhos como quem tentava ver através da janela embaçada. 

De repente, se espreguiçou, suspirou, pegou as chaves, abriu a porta e saiu correndo, abriu os braços e começou a cantar debaixo da chuva. Ela sorriu, sorriu um sorriso tão inocente feito o de uma criança que ganha doces. Sorriu um sorriso aliviado, de quem põe a alma pra dançar.

O vestido que era rosa bebê, virou rosa choque. E as bolinhas que nele estavam, só faltavam pular de felicidade. Os cabelos que era lisos viraram cachos que grudavam em seu rosto, a maquiagem borrou.

E João?
A única coisa que pode fazer foi juntar-se a louca que cantarolava algo debaixo de uma tempestade. Ficaram ali feito duas crianças até as gotas cessarem.

Os sorrisos ficaram um pouco menos desbotados naquela noite.

(Tamires Alci)

FIM DE MÊS

Um dedo de café
Doce, bem doce
Enquanto assisto a novela das seis
Acabou o dinheiro e ainda nem chegou o fim do mês
Ando preocupada
Contando os passos pra distrair a mente
Escrevendo versos pra parecer inteligente.

Ventos quentes
Horário de verão
Pelo menos isso ajuda
A ilusão de que o tempo está passando mais rápido
Mas ao mesmo tempo
Paro, penso
Pra que estou correndo?
Pra onde estou correndo?
Na direção dos ponteiros do relógio
De pulso, de bolso
Na bolsa, a carteira...Sem dinheiro
Ainda meio de mês
Acho que vou penhorar a pulseira que ganhei do meu tio holandês.

Eu vou atravessando a cidade
À fim de chegar em casa
De passos curtos e olhos quase cegos
Meu para-brisa está todo chuviscado
As gotas vão descendo minha bochecha
Parece que estou chorando, sem chorar.

Abro a porta
Olho o calendário que fica na parede, ao lado do fogão
Dia 27
27 de ouros
Valete de paus.

(Tamires Alci)

•Ouvindo Agora: Grenade - Bruno Mars




sexta-feira, outubro 12, 2012

CONTOS URBANOS - O DON JUAN DO BAR

Num olhar disfarçado entre tantos naquele bar de esquina, ele olhou, fitou, observou por uns cinco minutos aquela menina. Sem a menor das intenções ou quem sabe, com a maior de todas elas. Nunca soube o que dizer em situações como esta. Na verdade, ele não era um galã de novela, era apenas um sujeito normal. Que, por sinal, acabara de se apaixonar. 

Teve mil pensamentos em uma fração de segundo. Tantas frases, palavras e até aquelas sujas 'cantadas de pedreiro'. Um turbilhão passou em sua mente, um furacão. Um furacão sem nome e sem endereço, sem número de telefone, sem guardanapo com bilhete. 

Ela sentou-se em uma mesa ao fundo. Ouvindo a música na jukebox cantarolou silenciosamente. Era uma de suas preferidas, Oasis. Ele reconhecia a melodia, mas não sabia cantar e além do mais, estava tão longe que mal prestava atenção em qualquer palavra. Tentou fitá-la discretamente, sem sucesso. Ela percebeu, sorriu, corou.

Depois de uns dez minutos entreolhares, o celular dela toca, atende afobada. levanta-se e sai do bar como se nada tivesse acontecido. E lá se foi, talvez, o único amor de um Don Juan mal acabado.

Sem dizer uma palavra das milhares que pensou, sem o sorriso no fim de tarde e sem os filhos depois do casório.

Eis o Don Juan mais tímido que conheci.

(Tamires Alci)

•Ouvindo Agora: The Masterplan - Oasis

terça-feira, outubro 02, 2012

POEIRA

Eu olho em volta
Reparando tudo ao meu redor
Coisas velhas
Trapos acumulados sobre a mesa de canto
Junto à todas aquelas revistas velhas.

Da janela do avião
As nuvens
Da janela de casa
Junto à cortina
O cheiro daquele incenso insosso 
Que eu fingi que gostava.

Ânsia de vômito
Pedras nas paredes
Conchas ao chão
Conhaque posto
Sem gosto
Sem refeição.

Uma imagem distorcida
Na tv cheia de fantasmas
A antena com bombril 
E a roupa puída 
Tanta poeira que ataca minha asma
Bombinha
Bombinha
Respiração em 3...2...2...2...1

Poeira cósmica sem estrela

O tempo passou e ficou por aqui
O vazio se instalou ao mesmo tempo que tossi
O aviso já dizia:
"Nada velho te faz bem"

(Tamires Alci)

•Ouvindo Agora: Losing My Religion - R.E.M

segunda-feira, outubro 01, 2012

O TEMPO

E tudo vai mudando
Os dias
Os meses
As estações.

O tempo se estica
Feito bola de chiclete
Chiclete de menta
Que deixa um ar refrescante na boca.

E vão ficando sorrisos
Vão ficando algumas datas
Algumas fotos
Algumas cartas
E os versos que anoto.

O tempo vai andando
Feito criança atrás dos pais
Passadas leves, pequenas
Mas quando se olha pra trás
Aquela criança cresceu
E pra alguns, somente alguns
Muito tempo se perdeu.

O telefone toca
As horas passam
Eu nem percebo.

Eu faço o almoço
E deixo feijão para o jantar
Eu quero seu cafuné
Nos seus braços me deitar
E deixa que o tempo escorra por entre os dedos
Por entre os números do relógio
Por que ser feliz
Jamais
Repito, jamais será um desperdício.

(Tamires Alci)

•Ouvindo Agora: Even The Nights Are Better - Air Supply
  •