quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Previsão do Tempo

Previsão do tempo, 4 de agosto de 1983
"Tempo parcialmente nublado, possibilidade de pancadas de chuva na parte da tarde e apenas em algumas áreas de cidade"

Acordou
Vestiu-se
Abriu a janela
Olhou o tempo
Olhou-se no espelho
Que desajeito.

Era um vestido preto na altura dos joelhos
O cabelo, levemente encaracolado, na altura dos ombros
Brincos pequenos
Boca pequena
Batom sem graça
Pouco era atraente
Pouco atraía olhares
Que olhares?

Guardava-se para sí
Recatava-se por medo
Sua tia, uma antiga velha sertaneja dizia que o diabo atentava as mulheres para vestirem-se como quengas e depois que passavam a fazê-lo, suas almas já pertenciam-no.

"Dezulivre" eu me vestir assim
Batom vermelho
Brinco dependurado
Roupa colada no corpo
Não quero diabo nenhum vindo me pegar de noite
Minha alma pertence à Deus
Pensava consigo mesma enquanto se arrumara para mais um dia de trabalho.

Inconscientemente admirava as moças dentro do ônibus
Aquelas que sua velha tia chamava de quengas
Elas usavam aqueles batons vermelhos ou rosa-choque
Tinham um rubor bonito e saudável nas maçãs
A linha d'água era delineada à lápis
E elas tinham um brilho nos olhos
Aquele brilho nos olhos.

Intrigou-se
Como pudera uma mulher com a alma vendida ao diabo ter olhos tão brilhantes, tão belos?
Desarranjou-se nesse pensamento e ele ficou o dia inteiro martelando-lhe o juízo.

Chegou em casa
E no prédio em que morava, tinha um amigo
O porteiro, Sr.Antônio
Decidiu então, perguntar-lhe
Tomou ar
Suspirou
Exitou
Mas perguntou
"-Sr.Antônio, o senhor por acaso acha que essas mulheres que pintam a face e andam com vestido justo venderam a alma ao diabo?
 

-Mas que pergunta é essa, minha filha???
 

-Minha tiazinha dizia isso pra mim...Que eu não podia pintar-me ou usar roupas que acentuassem as curvas...

*Sr.Antônio pensou, revirou os olhos e disse:
 

-Minha filha, preste atenção e guarde esse conselho pra toda vida, tudo bem?
 

-Tudo bem...
 

-Essas moças que você no ônibus, no trabalho e nas ruas, pintadas, bem arrumadas e com o brilho nos olhos não venderam a alma pra diabo nenhum. Elas tem esse encanto, esse brilho, porque suas almas pertencem à sí mesmas, seus desejos, suas vontades...Tudo pertence à elas.
 

 -E o diabo, Sr.Antônio?
 

-O diabo? O diabo são os outros..."

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

LIBERDADE

Sentou-se no sofá
Esticou as pernas sobre o puff
Para lhe acompanhar
Nada menos que uma xícara de chá.

Ligou e desligou a televisão por duas vezes
A luz do stand by ficou acesa
Todas as lâmpadas da casa
Apagadas.

Estava uma penumbra insólita
Era quase noite
O relógio marcava 18:40
Ainda assim, alguma luz entrava pela porta.

Uma carteira de cigarros acompanhava-lhe também
Somente isso
Era só ela e mais ninguém.

Podia fazer o que quisesse
Ficar pelada
Falar asneiras
E rir sozinha
Apesar de tudo
Conteve-se e atrelou-se mesmo foi à xícara de chá.

Muita gente achava que ela sofria de depressão
Mas a verdade mesmo é que ela atribuiu ao ato de ficar sozinha, uma palavra e ela se chamava LIBERDADE.

NOVA PARCERIA

Olá amigos, boa tarde!

Venho com alegria informar que o blog Infinita Liberdade fechou uma parceria com o site Conectando Ideias

A ideia surgiu hoje através de um grupo de escritores no facebook. O intuito principal é arrecadar novos membros das várias vertentes de escrita para um "ciclo" de divulgação dos nossos trabalhos.

Isso consistiria em linkar-mos os blogs uns dos outros e caso fosse de interesse comum, publicarmos em nossos próprios blogs os trabalhos que acharmos interessantes dos membros parceiros.

Caso conheçam pessoas que se interessem por essa iniciativa, vocês podem estar entrando em contato através do meu email 08.tamires@gmail.com

Um abraço à todos!

sábado, 20 de janeiro de 2018

SOBRE A TAL "SURUBINHA DE LEVE"

Estou perplexa. É apenas isso que posso afirmar momentâneamente.

A que nível de degradação cultural chegamos para chamar isso de música? Para chamar o tal MC de artista? A que ponto chegamos?

Expressar a liberdade cultural através de músicas, danças, apresentações é completamente normal. É um direito inclusive, mas "isso"?!

Isso ao que me refiro é apologia a um crime gravíssimo, o estupro.

Deixo um trecho para vossa apreciação (ou depreciação, como queira)

"Brota e convoca as puta
Mais tarde tem fervo
Hoje vai rolar suruba
Só surubinha de leve
Surubinha de leve com essas filha da puta
Taca bebida depois taca pika
E abandona na rua"

Não é de hoje que vem se popularizando entre os jovens esse tipo de "música(?)". Não é de hoje que a degradação da mulher, a objetificação se tornou uma coisa banal em letras de funk. A própria Anitta, com o "hit do verão" "vai malandra" expõe claramente a nossa degradação quando dança com um fio dental de fita isolante na favela. Mas vou te dizer, o pior de tudo não é ela, o pior de tudo não é o tal MC que compôs a surubinha de leve. O pior mesmo são as pessoas, principalmente mulheres que popularizam esse tipo tosco de música quando vão pro baile balançar o "rabetão".

O pior de tudo é a mãe de 3 filhos que tem 20 anos e deixa as crianças escutarem esse tipo de lixo que a indústria musical e a mídia tentam nos enfiar goela abaixo.

Raciocina aqui com a tia, se você tem um filho homem, de até uns 5 aninhos pra cima e você deixa ele escutar esse tipo de absurdo, seu filho vai crescer achando que é comum tratar a mulher como um objeto, achando que a mulher tem sempre que fazer as vontades dele, caso contrário, como a própria música diz, ele vai achar que é direito dele "tacar bebida, tacar a pika e abandonar na rua", coisa bonita, né?!

Agora se você tem uma filha mulher, ela simplesmente vai crescer achando que mulheres como a Anitta e várias outras do funk são empoderadas, são resolvidas com seu lado sexual, quando na verdade, as mesmas andam com mais de 10 seguranças ao seu lado para não serem estupradas ou para que não façam com elas o que elas demonstram em seus clipes e letras de música. No ruim, no ruim, tua filha vai crescer achando que ser um belo pedaço de carne é comum e ser tratada como tal, idem.

Será que é isso que queremos pra nós? Será que é isso que queremos ouvir? Será que é esse o futuro que queremos pros nossos filhos?

A alienação midiática no Brasil chegou a níveis astronomicamente rídiculos e só não percebe quem não quer (ou quem tá vendo a novela essa hora)

Questionem-se!

Onde foi parar o nosso bom senso? Quando foi que deixamos a porta escancarada para que nos dessem como ídolos Pablo Vittar, JoJo Toddynho, Anitta, Mc Zac e tantos outros que apenas nos denigrem como pessoas?

Quando foi que nos perdemos dos nossos velhos tempos onde ouvíamos Roupa Nova, Elis Regina, Legião Urbana?

Ah, já sei...

Foi quando a bunda passou a ser mais importante que o cérebro e o conteúdo da mulher foi enfiado dentro do seu próprio cú.

Esse é o nosso Brasil! Pátria das bananas? Não! Pátria DOS bananas.

Encerro-me com Renato Russo:
"Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro é feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos"

Fique à vontade para seguir me no facebook em: facebook.com/infinitaliberdade

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

DEVORAVA-OS

Devorava livros de uma estante empoeirada
Devorava-os tão deliciosamente que chegara quase a ler um por dia
Sentia-se viva
Sentia-se nova
Sentia-se feliz.

Vivia tantas viagens
Tantos mundos
Tantos outros universos e galáxias.

Devorava os livros
Ao lado, uma xícara de café
Apoiado em um banco, um cinzeiro
Devorava tanto os livros
Quanto os maços.

Voava em versos
Dançava nas ondas do mar
E até podia ouvi-las quebrando na janela.

Às vezes era homem
Às vezes mulher
Às vezes nem isso era
Era um infinito distorcido.

Devorava-os
E a cada dia, sua mente tornara-se mais rica
Mais criativa, explêndida e exuberante.

Nunca havia sido uma mulher feia
Passava longe disso
Mas a cada livro que devorava
Pérolas prendiam-se nos cabelos
E seus olhos, ficavam ainda mais cheios de luz.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

DESILUSÃO LITERÁRIA

Desilusão literária

É estou até agora, uma hora depois, tentando lidar com a morte
A verdade é que a morte é sempre difícil e nós nunca estamos preparados
Ela vem de surpresa em hora inteira ou hora avessa
O mal é que ela sempre vem
E veio
Roubou-me a minha pequena Macabéa
Roubou-me a minha nordestina com quem aprendi a conviver

Macabéa, apesar de tudo, era minha e não tinham direito de roubar-lhe a amargurada vida.

Magricela, esquálida, não tinha nem cor na pele
Muito menos o brilho nos olhos, foi assim que me disse Clarice e ao contar-me tanto dela, tornou-a parte de mim.

Se eu acredito em sua existência, ela existe e existe porque acreditar é a força mais potente do mundo.

Ontem passei pela rua Acre, onde resignava  sua mera existência. Vi seus cortiços e imaginei-a ouvindo a rádio relógio.
Ontem também passei pelo cais do porto, onde aos domingos, tinha o pequeno prazer de admirar os navios.  Imaginei-a novamente, observando, até comentei com o meu marido.

Que audácia dessa moça matar-lhe e matar-lhe da forma mais estúpida que conseguiu
Revirou minhas entranhas
Pois parecia, na verdade, que a pequena Macabéa, havia nascido de mim
Não chorei
E não chorei, porque talvez sua vida vã não merecesse "una furtiva lacrima"
Mas senti e o sentimento uniu-me à ti, mesmo que por um instante.

Tua burrice era tão grande que me despertava sorrisos, apesar de eu saber que isso seja mal educado. Mas ela, besta que era, não se importaria mesmo.

Pobre Macabéa, morreu donzela
Donzela de sexo
Mas principalmente, donzela de viver
Já que só experimentou o gosto da vida pouco antes de morrer.

É complicada mesmo a morte
Dizem que tem gosto de morangos.

TEM VEZES QUE...

Tem vezes que um abraço vira lar
E independente de onde você esteja
É dentro dele que quer ficar.

Um abraço de proteção
De carinho
De saudade.


Tem vezes que um domingo vira um mês inteiro
As horas demoram a passar
E quanto mais demoram, mais queremos que continuem a demorar.

O relógio nada vale
Vale a cama, o sofá, a TV
Estar junto de ti
Estar onde você está.


Tem vezes que a noite é pequena
E a gente só queria que durasse mais
Pro meu corpo continuar perto do teu
Pra continuar dormindo com o seu cheiro.


Tem vezes que a gente briga
Mas de que vale mesmo?

Tem vezes que a gente não consegue explicar
Um sentimento, uma sensação ou aquele brilho nos olhos
E pra todas essas vezes é apenas amor. 


Te amo.

-Tamires Santos

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CHUVA

Vai chover
o tempo escureceu
e com suas nuvens e ventos
me levou o pensamento pra longe
pra você.

Vai chover
E quando a chuva cair
Uma gota vai pingar no meu cabelo
E um cisco virá com o vento
Uma lágrima vai cair
De lacrimejar
Ao lembrar
Daquele pequeno momento.

Vai chover
e os relâmpagos
vão continuar me assustando
Mesmo eu tendo meus vinte e muitos anos.

Vai chover
E o salto alto vai afundar na poça
a chuva vai molhar muito mais que minha bolsa.

Vai chover
E os meus olhos também choverão
Choverão águas de março
Uma tempestade no vão.

Choveu
O salto quebrou
A bolsa molhou
o amor...O amor acabou
E agora José, tem guarda-chuva aí?