sábado, 12 de outubro de 2019

Sobre não ser mãe

Indo pro trabalho essa manhã, vi uma imagem de um relato sobre um médico que se negou a fazer laqueadura em uma mulher sem filhos, li os comentários e isso embrulhou meu estômago o dia inteiro. Por fim, venho vomitar minhas considerações.


Porquê é tão difícil aceitar quando uma mulher não deseja ter filhos? Porquê isso agride tanto a "moral e bons costumes"? Porquê incomoda tanto?

A maternidade é uma benção quando desejada. Quando indesejada pode se tornar um tormento temporário ou que se perdure por uma vida inteira.

Muito irão dizer que a frase acima é cruel, mas cruel com quem? Com os ouvidos/olhos delicados que a ouvem/leem ou pra quem realmente está passando por isso?

Já senti muita vontade de ser mãe há algum tempo atrás, até hoje as risadas de bebê dão uma esquentadinha no coração, mas não me vejo mãe (talvez não no momento, talvez não pela vida inteira). Isso não quer dizer que eu sou menos mulher ou menos humana. Quer dizer simplesmente que eu quero manter a minha liberdade, seja por agora, seja pra sempre.

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso, mas porquê romantizar essa frase? Ninguém quer padecer, apesar de qualquer outra coisa, ninguém quer. E quem vier a dizer que quer, está sendo hipócrita. Tudo bem que é por algo maior e blá blá blá, mas ninguém quer sofrimento.

Como disse no início do texto, vi essa imagem no facebook e entrei pra ver os comentários e por mais tosco ou escroto que pareça, eu vou citar alguns:

"Deveríamos homenagear esse médico"

"Tomara que você tenha uma renca de filhos"

"Espero que você seja estuprada"

"Se não quer ter filhos, não transe"

Quanto à esse último, parece que voltamos à idade média, não é mesmo?!

O mais agravante nisso tudo é que quase 90% dos comentários eram de, pasmem OUTRAS MULHERES. "Deveríamos homenagear esse médico" - Deveríamos homenagear alguém que ajuda a promover a falta de escolhas a que somos submetidas todos os dias no que tange a sexualidade feminina? 

Só mulher sabe o quanto a nossa sexualidade é limitada. Se não queremos filhos, temos que tomar um anticoncepcional que nos mata um pouco a cada dia ou usar a abençoada da camisinha que tira toda e qualquer forma de prazer do ato sexual. Quem ainda não tem filhos dificilmente tem chance de colocar DIU ou mesmo fazer a laqueadura. Porquê?

Porquê é tão assustador que uma mulher saiba o que fazer com o próprio corpo? Porquê é tão assustador que ela não queira ser chamada de mãe ou cuidar de alguém pela vida inteira? Porquê assusta tanto a não-maternidade? Quando é com o homem, não é tão assustador assim ou é?

Aceitem, existem mulheres que não nasceram pra isso e isso não é um problema seu. Aliás, nem é um problema. 

Apontamos os dedos pra quem não quer ser mãe, mas ao mesmo tempo, negamo-lhes o direito de decidir e intervir no próprio corpo para evitar que isso aconteça (como na laqueadura), para depois podermos novamente apontar nossos dedos quando a mesma decide por um aborto, numa clínica clandestina. E se morrer, ainda dizem-lhe "bem feito".

Podemos estudar, trabalhar, tirar fotos de buracos negros e tudo que o universo pode nos oferecer. Podemos ser bonitas, cultas, educadas, mas não podemos rejeitar o "instinto" que logo viram-nos a cara.

Temos que ouvir da sociedade e de um médico que um dia a gente pode se arrepender porquê o nosso marido pode querer um filho e nós não poderemos dar. Temos que engolir seco que o corpo que habitamos, em parte, pertence ao bel prazer da decisão de um homem, que em alguns casos, ainda é desconhecido.

Não evoluímos. Não nos tornamos racionalmente capazes de entender e aceitar que as pessoas pensam diferente. Não lutamos pela moral da "Família tradicional brasileira". Em vez disso, tornamo-nos a tia fofoqueira sentada na calçada que não lava nem a sua própria louça.

(Tamires Alci)

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