sábado, 1 de fevereiro de 2020

Suzana

Segunda-feira, 7 de abril de 1997.

Abriu a porta, não acendeu a luz. Sentou-se no sofá, a vontade sufocante era de gritar, mas nada. Nem um pio se quer, nenhuma palavra. Por um instante, ela adentrara completamente em meu mundo, um silêncio cortante e extenuante. Verteu-se em lágrimas, lhe escorriam a face com imensa facilidade e pareciam pequenas cachoeiras, o que dizer? O que estava acontecendo?

Eu realmente não sabia, eu não fazia ideia do que havia acontecido. Seria algo errado entre nós? Fiquei inquieto, meu coração se apertou e fui até a cozinha, dois copos de whisky, o dela, com gelo. Sentei-me ao seu lado no sofá e mostrei-lhe o copo, pegou de minhas mãos, brindou com um pequeno sorriso, ainda que desacreditado e li seus lábios "saúde". Ela tomou tudo de uma só vez. Fiquei admirado, confesso. Ela não era disso, costumava criar peixes no copo e beber whisky com a água do gelo derretido. Mas aquele dia foi diferente, aquele dia não estava legal, julgo até ter sido um daqueles dias de cão. Depois disso as cachoeiras diminuíram, mas ainda haviam gotículas incômodas das quais eu não sabia o motivo. Abracei-a, tomei pra mim e naquele momento eu queria que tudo que a afligisse simplesmente passasse para mim. Fiz o meu melhor, dei meu melhor abraço e ela se aconchegou ali, como se fora uma criança com medo. Ficamos nesse momento por longos minutos, quase uma hora, na verdade, quando ela soltou-me. Encarando-a, gesticulei e ela logo procurou um papel para descrever-me o ocorrido. Nos comunicávamos assim e em alguns gestos, às vezes caretas. Tenho deficiência auditiva e na fala, por consequência, mas sei ler e escrever, mesmo sem imaginar como são exatamente as pronúncias.

"Perdi o emprego"

Puta merda!, pensei. Ela amava o emprego, era tradutora de uma grande empresa. Ultimamente andava meio xoxa e por mais que eu insistisse, poucas vezes ela me contou ou desabafou sobre o que andava acontecendo. Porém, eu acredito que a gente deve desabafar sim, ainda mais com a pessoa que escolhemos pra viver. Quando me casei com ela, prometi: " Na saúde e na doença. Na riqueza e na pobreza." Eu estava ali, eu sempre estive. Mas compreendo também, é o jeitinho dela. Capricorniana.

Pôs-se a escrever por longos minutos e quando vi, seu desabafo já somava quase duas folhas, frente e verso. Não, eu não estava me importando de ler aquilo tudo, estava mesmo era preocupado com tantas coisas que ela havia abafado pra si mesma. Quando terminou, li tudo. Cada palavra, minuciosamente, cada expressão de raiva, cada lágrima que havia também naquelas linhas. Andava tendo problemas com uma supervisora que tentou por várias vezes assediá-la moralmente e desmerecê-la. Fiquei possesso! Como ela podia não ter-me contado aquilo? Tomado pela raiva momentânea eu quis brigar, eu quis me isolar, eu nem quis continuar a ler, mas li. Respirei fundo. Fui até a cozinha, peguei mais um copo, dessa vez, de água. Terminei de ler seu relato por lá mesmo, ela, que não é desentendida e é sempre adequada com as atitudes, ficou na sala e esperou que eu viesse a me acalmar.

Fiquei enraivecido. Eu quis brigar com ela por me esconder tantas coisas. Até de vagabunda, dentro do banheiro, minha esposa foi chamada. Terminei o relato e o copo, respirei por uns quinze minutos, fui até a sala e a abracei novamente. Ela me olhou assustada. Esperava uma reação diferente. Ficamos ali novamente por longos instantes e eu percebi o quanto amava aquela mulher. Percebi que se ela havia escondido de mim tal situação, foi por achar que poderia aguentar, que conseguiria manter o emprego. Eu não tinha uma situação tão boa quanto a dela dadas as minhas condições, mas ajudava ela a manter a casa com todo o meu esforço e por ter uma vaga "PCD" chegava mais cedo e deixava a comida pronta, nunca vi problema nisso.

Ela era o pilar da casa, não nego e naquele momento, eu vi meu pilar querer começar a ruir, eu jamais iria permitir que isso acontecesse. Aconcheguei-a em meu peito pelo tempo que foi necessário até as lágrimas cessarem, tomamos um banho juntos, esfreguei-lhe as costas, lavei seus cabelos, beijei-a e entreguei todo o meu amor, fiz carinhos, fiz até brincadeiras, jogando água em seu rosto. Tímida e ainda chateada pelo que havia acontecido, sorria um sorriso xoxo, mas como quem diz "obrigada por estar aqui". Terminamos o banho e coincidentemente eu havia feito sua comida favorita, lasanha de frango.

Jantamos, escovamos os dentes e fomos pra cama. Naquele dia ela não precisava dormir cedo, ficamos vendo filmes até as 03:00, quando notei, ela estava babando no meu peito de tão cansada, tão exausta. Fiz-lhe o melhor cafuné da vida até adormecer também. Antes de adormecer só pude agradecer a Deus pela perfeição de um momento, um dia, tão imperfeito.

O dia em que a minha esposa deu um tapa na cara da sua supervisora e foi demitida por justa causa foi exatamente o mesmo dia que eu percebi o tamanho do amor que eu lhe devotava. Agora ainda mais puro, mais sincero, mais adulto e com um reconhecimento sobrenatural da mulher forte e destemida que ela havia se tornado. Já não se calava com as ofensas, já não deixava que ultrapassassem suas barreiras emocionais. Ela perdeu o emprego, mas garantiu minha admiração por todas as próximas encarnações.

Suzana, eu te amo.

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